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Bagagem



Foi tão rápido que parece que nem aconteceu. O coração tá cheio, cheio de memórias, emoções, imagens e histórias ecoando dentro de mim. O som da risada de três senhoras animadíssimas, que se dobravam de rir durante a apresentação na comunidade Quilombola do Sapé. Tal comunidade que ficou isolada por dois meses por conta da lama tóxica que destruiu a estrada que ia desde as suas casas até Brumadinho. Há apenas uma semana,  uma nova estrada foi feita, trazendo de volta o acesso ainda lamacento e uma nova ponte chamada “Ponte sobre o Rio Ferro”, que é no mínimo irônico.


Lembro do encontro com os Pataxós, no qual depois do show dançamos o toré e fizemos um passeio até ao rio que morreu! A cada dia Angohó vai até lá para fazer um ritual de cura, faz um leque de ervas para cada lado do rio, “ervas que cicatrizam feridas, já dá pra ver que o rio está começando a melhorar”, diz.  Alí do lado está o acampamento dos MST. Com admirável organização, escola própria, lugar lindo com um rio marrom contaminado que atravessa estas terras impossibilitando a continuidade da horta comunitária que alimentava e sustentava toda esta gente.


No dia de ramos, ganhamos a simpatia do Padre René que nos abriu as portas da Igreja Matriz de Brumadinho e convidou os seis palhaços para entrar cantando depois da missa. Foi o momento que conseguimos a maior concentração de pessoas. A emoção foi forte, ao chegar ao altar e virar de frente para os fiéis, pude ver os rostos de cada um, cada olhar emocionado, a começar pelos nossos.


O Mulambo lascou um beijo no padre, a Jurubeba elogiou a sua bata dizendo que era parecido com o vestido dela, a Provisória puxou a música “Calix Bento’, de Milton Nascimento, e as vozes de Montanha, Lola e Risoto, junto com as dos fiéis, cantaram. Para finalizar, o padre nos abençoou e fizemos um pocket show no pátio de entrada da igreja. Foram risos rasgados que esperavam para sair, foram abraços de gratidão e frases e histórias de cortar o coração.


Todos precisam falar, ser escutados, e nós acabamos por ganhar uma credibilidade. Após o show, essa abertura que é gerada fez com que as pessoas viessem nos contar, dividir com a gente a dor. Fico pensando que é porque viemos dividir alegria. Dizem que a cada encontro de nossas vidas, levamos um pouquinho do outro e o outro leva um pouquinho da gente. Que bom! Quando eles deixam entrar um pouquinho da  alegria a dor tem que sair um pouco para abrir espaço e esta saída vem em forma de lágrimas, abraços e desabafos e até mesmo do riso. Nós levamos com a gente cada troca de olhar e emocionados, às vezes com o nó na garganta, rimos.


No Parque da Cachoeira, local onde o maior número de vítimas foi encontrado, a nossa apresentação estava marcada no campinho de futebol, mal sabíamos nós que este local, agora cheio de pedras, foi pouso de corpos e helicópteros. Será que por isso não chegou ninguém? Mas nós fomos atrás das crianças e encontramos. Fomos também no caminho percorrido pelo tsunami tóxico, agora até que está verde, depois que a empresa responsável pelo crime jogou várias sementes para maquiar a destruição, carros de ponta cabeça, casas arrastadas, cds, cobertores, geladeiras, ainda no local, deixando nítida e fresca a vida que havia por ali.


Mais lágrimas escorreram, nossa querida guerreira e acompanhante, Marina, garota/mulher de 23 anos, ativista que está engajada defendendo os direitos das comunidades, fazendo um trabalho de gente grande mesmo, nos abraçou ali. Ela está com a gente, ela é de Brumadinho e vive tudo isso. Aquela imagem que não dá para entender é surreal. No momento fiquei fria e pensei no quanto eu já vi destruição por terremotos, furacões, deveria estar acostumada, mas a ficha demora mesmo para cair. E não, não me acostumarei com essas imagens e injustiças.


De volta pra casa, a viagem começa de outra maneira, agora sem risos, decantando cada momento, sentimento que troquei e trago dentro de mim. Grata aos meus companheiros, ao suporte que demos uns aos outros com muito amor e dignidade através do ofício que nos une e nos proporciona encontros gigantes! Mulambo Do Sertão, o Nando; Fernando Paz, o Montanha; Luciana Viacava, a Lola livre; Lud Benquerer, a maestrina Provisória; Risoto De Carne Moída, o Francis, o Risotin; Marina e Enzo do Coletivo Nós <3


Diário de Bordo de @Gaby Siaguade, a palhaça Jururbeba, durante o #ProjetoBrumadinho, realizado pelo Palhaços Sem Fronteiras Brasil e Instituto Hahaha

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