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O Amor




Eu tenho tanto para te falar, mas com palavras não sei dizer, que quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti, porque você é algo assim, é tudo para mim, que mexe com minha cabeça e me deixa assim.

Você acredita em amor à primeira vista? Pois é, eu acredito. Eu vi.

Hospital das Clínicas. “É primavera, te amoooo”. De um lado, Dra. Suzette e Dr. Alfinete, do outro o menino João. Os doutores andam lentamente, cumprimentam os passantes, se apresentam, afinal é seu primeiro dia de trabalho. João, 4 anos, dispara na direção dos palhaços com seu corpinho forte. Me apresento e apresento o Dr. Alfinete. O menino vê o Alfinete. O menino vê o Alfinete. O menino vê o Alfinete. E foi ali que aconteceu, crazy little thing called love, oh l’amour, love of my life. Sim, love is in the air.

Já te aconteceu de olhar para alguém e sentir aquele friozinho na barriga? Aquela certeza súbita? Aquele calorzinho no coração? Pois é, com o João aconteceu.

E a partir desse dia, a cada nova visita da dupla ao HC, bastava o Dr. Alfinete tocar um acorde de sol no ukulelê lá do elevador para que o menino se iluminasse. Ele vinha correndo e gritando “Alfinete” lá do fundo da ala, atravessava a ala comprida toda vida para ver o Alfinete cantar. João queria escutar o Alfinete. Depois, ele queria brincar com o Alfinete. No outro dia, queria um chapéu igual ao do Alfinete. Ah, também queria um jaleco. E também queria a camisa e a calça iguais. E as ferramentas do Alfinete. Carne e unha, alma gêmea, bate coração.

Assim, foi durante um mês. João só tinha olhos para o Dr. Alfinete. “Quando a luz dos olhos meus encontra a luz dos olhos seus, meu coração bate feliz quando te vê”.

Vocês já ouviram dizer que o amor é cego? Pois é, eu já ouvi. E vi.

Um dia, o Dr. Alfinete não foi, e a Dra. Rosa foi em seu lugar. Do elevador, Rosa puxa uma música no violão, entramos na ala cantando. Lá do fundo João põe a cabeça para fora do quarto. O menino vem correndo em nossa direção, para na nossa frente, olha bem para a cara da Rosa e diz: Alfinete, toca a música do Cai Cai Balão!

Não era amor, ô ô, não era. Não era amor, era cilada, cilada, cilada...



Texto: Dra. Suzette Marie (Daniela Perucci)

Foto: Fabiano Lana