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Libélulas voadoras



Acabo de ver um helicóptero passar no alto!


Dizem por aqui, vindo da boca de quem esteve, está e continuará apoiando atingidos, que um menino desenhou uma dessas libélulas voadoras e mandou para um bombeiro, pedindo que encontrasse o pai, e que dentro daquele saco, que também estava desenhado, o pai estaria vivo, dando “tiau” lá de cima. Desde que eu cheguei, foi o primeiro helicóptero que vi. Na hora, lembrei dessa história. Pensei sobre quais imagens essas crianças iriam formular e trazer consigo depois de tudo, tudo que talvez não passará. Uma outra guerreira, Fada, contou que tem um menino que não pode escutar um estalo que entra em choque, mesmo sabendo que a lama foi silenciosa ao levar os seus. Tem outro que dorme com uma mochila ao lado, com água e pão. O helicóptero lá em cima, e eu pensando que talvez lá dentro tem um figurão da Vale, ou um governante que não tá nem aí pra essas crianças. Ou, talvez, seja só alguém jogando sementes de grama, lá de cima cá pra lama, pois a grama cresce e maqueia o crime. Mas para a  dor e o medo  ainda não tem maquiagem.


Diário de bordo de Fernando Oliveira, o Mulambo, no Projeto Brumadinho, uma colaboração entre Palhaços Sem Fronteiras Brasil e Instituto HAHAHA.